terça-feira, 29 de junho de 2010

Quão Perfeitos são os Indicadores que Usamos?

Em finais do ano 2009 Joseph Stiglitz escreveu um artigo em que argumentava que as prioridades dos economistas e políticos são inadequadas porque dão demasiada ênfase a acumulação de bens materiais representado pelo Produto Interno Bruto (PIB). Este indicador se transformou num fim em si mesmo em vez de um meio para atingir melhor nível de vida. O mesmo acontece com outros “objectivos económicos” como redução da inflação pelos bancos centrais, aumento do investimento directo estrangeiro (IDE). A nossa cegueira é tanta que quase ninguém pergunta se maior PIB, inflação baixa, mais IDE é o que realmente queremos. A nossa cegueira não é porque não vemos, mas porque não queremos ver. Todos nós estamos conscientes de que os indicadores, principalmente quando estão agregados, dizem muito pouco sobre a realidade e são apenas meios para atingir “algo mais grande”. Mas quando chega a altura de prestarmos contas nos agarrámos freneticamente aos indicadores que usamos e, muitas vezes, nos esquecemos que estamos a lidar com ciências sociais onde os números que temos resultam, muitas vezes, da nossa construção ideológica, dos pressupostos definidos à prior e dos nossos juízos de valor.

Talvez a busca de indicadores perfeitos seja uma utopia. No entanto, parece me razoável sugerir que as nossas análises não se limitem apenas a um leque limitado de indicadores como acontece invariavelmente no mundo actual com indicadores como PIB, IDE ou inflação. Pior ainda quando essas variáveis parecem ser definidos como objectivos últimos da política económica e social. E não podem ser porque nada é automático. Mais PIB não garante melhor distribuição do rendimento e do excedente gerado no processo produtivo, nem sequer pode reduzir a pobreza a médio e longo prazo; mais e qualquer IDE não garante por si só melhor integração deste na economia e mais benefício para a economia receptora, nem menor inflação garante que as expectativas dos agentes sejam “ancoradas” e a actividade económica possa ocorrer normalmente.

Felizmente já existem iniciativas mais ousadas para tentar responder ao problema dos indicadores que reflictam de forma mais aproximada e mais realista ao padrão de vida das pessoas. Esses indicadores, apesar de mostrarem um avanço analítico impressionante, eles também não são perfeitos. Por exemplo, o surgimento do índice de desenvolvimento humano (IDH) revelou-se muito importante para perceber o carácter multifacetado da vida humana. O IDH pretende ordenar os países baseando-se em três outros indicadores simples: PIB per capita, nível educacional e esperança de vida à nascença. Outro exemplo vem de alguns países asiáticos que sugeriram uma nova medida de bem-estar social que se chama Felicidade Nacional Bruta (FNB). Desenvolvimento socioeconómico e equitativo, a preservação do meio ambiente, a conservação e promoção da cultura e a boa governação são factores a ter em conta no cálculo de FNB.

Apesar de ser um avanço significativo na medição do bem-estar, há aspectos da vida humana que não são tratados tanto pelo IDH como pelo FNB ou por outras medidas alternativas. Provavelmente isso reflecte a ideia de que é impossível (?) obtermos um indicador perfeito do bem-estar que reflicta ao que está acontecer na sociedade. A saída é, talvez, usarmos em conjunto de indicadores para ver até que ponto se pode como têm acontecido nalgumas análises acompanhado de um aperfeiçoamento contínuo dos nossos indicadores.

Para que a sociedade possa medir adequadamente o nosso desempenho precisamos reconhecer que os nossos indicadores actuais são falíveis e enganadores. Se economistas e políticos continuarem a se apegarem religiosamente a eles para justificar as suas posições teóricas, ideológicas e políticas, mais a sociedade pode perder do que ganhar como já acontece com o foco em indicadores já mencionados. Esses indicadores sugerem que a economia está muito melhor enquanto a sociedade sente que muito pouco foi feito para satisfazer suas necessidades.
@Zaqueo Sande