Origens do Padrão Ouro
O Padrão Ouro surge quando a sociedade começou a usar moedas de ouro como meio de troca, unidade de conta e reserva de valor. Apesar do ouro ser usado desde a Antiguidade, o Padrão Ouro como uma instituição legal desde 1819 na Grã-Bretanha quando o parlamento inglês aprovou o Resumption Act (Lei que exigia que o Banco de Inglaterra ressumisse a prática de trocar suas notas pelo ouro).
No século XIX Alemanha, França e Japão e outros países adoptaram o Padrão Ouro. Nessa altura a Grã-Bretanha era a economia líder no mundo e outros os países esperavam obter o sucesso imitando as instituições britânicas. Mesmo os EUA aderiram ao Padrão Ouro em 1879.
Características do Padrão Ouro
• O ouro era usado como moeda a nível interno e externo
• O valor da moeda era definido em função da quantidade de ouro em poder do Banco Central
• A quantidade de ouro dependia de transacções entre residentes e não residentes
• A principal função do Banco Central era manter a paridade entre a moeda nacional e estrangeira
• Existência de mercado privado de ouro
• Regime de taxa de câmbios fixa entre todas moedas (paridade de moeda).
• Simetria inerente ao padrãoouro que obrigava que todos países intervissem no mercado cambial (sempre que um país está perdendo reservas o que implica uma queda da moeda em circulação, como consequência, os países estãao estrangeiros aumentam suas reservas, aumentando assim a sua oferta de moeda).
Definição da Taxa de Câmbio em Relação ao Ouro
Vamos supor que dois países, Inglaterra e França, fazem a cotação da sua moeda em termos de ouro. Qual vai ser a taxa de câmbio entre a libra inglesa e o franco francês?
£1_________ 8 g de ouro
FF 1_______ 0.32 g de ouro
Assumindo que os custos de transportes são nulos, o cálculo da taxa de câmbio entre estas duas moedas é similar ao cálculo da taxa de câmbio cruzada. Assim, uma libra custa 25 francos franceses:
£1*0.32g = FF1*8g
£1= (FF1*8g) /0.32g
£1= FF1*8/0.32
£1= FF25
Alternativamente, um franco custa 4 cêntimos ingleses:
£1*0.32g = FF1*8g
(£1*0.32g)/8g = FF1
FF1= (£1*0.32)/8
FF1= £0.04
Se no mercado £1 = FF22, então aqueles que quiserem obter francos com libras passariam pelo ouro e não pelo mercado de câmbios. Com uma libra se obtêm 8 gramas de ouro junto das autoridades monetárias britânicas e com este ouro obteriam 25 francos junto das autoridades monetárias francesas. Porém, no mercado de câmbio com a mesma libra obteria 22 francos (preço mais baixo que o oficial) o que implicaria que a quantidade de libras nesse mercado vai reduzir pressionando assim o preço de libra em relação ao franco até atingir os 25 francos.
Mas se no mercado de câmbios £1 = FF30 então agentes procurarão ouro trocando o por libras para comprar francos e a quantidade de libra aumenta na economia, pelo que o preço da libra irá diminuir tendendo a voltar para a taxa de câmbio oficial £1 = FF30. A taxa de câmbios tende a voltar a paridade oficial através do regime de câmbios fixos.
Equilíbrio Externo no Padrão Ouro
Objectivo primário do banco central é preservar a paridade oficial entre as suas moedas e o ouro; para manter essa paridade, precisa um stock adequado de reservas em ouro. Para os tomadores de decisão, equilíbrio externo era visto em termos de ganhar ou perder reservas em ouro do estrangeiro.
Reservas internacionais em forma de ouro: superávit e deficit na BOP têm de ser financiado através de transferência de ouro entre bancos centrais.
Equilíbrio da BOP acontece quando a soma da conta corrente, conta capital e a componente não reserva da conta financeira é igual a zero de tal maneira que a conta capital mais a conta corrente é inteiramente financiada pelo empréstimo internacional privado sem o movimento de reservas.
Países que produzem ouro (potencialmente) têm capacidade considerável de influenciar as condições macroeconómicas internacionais.
Os fluxos do ouro que acompanham os défices e superávits causam alterações de preços que reduzem os desequilíbrios nas transacções correntes e restauram o equilíbrio externo de todos os países. Nesse sistema existia um mecanismo automático poderoso que assegurava o equilíbrio do balanço de pagamentos descrito por David Hume, o mecanismo do fluxo do preço em espécie. Esse mecanismo, que era possível devido ao fato de a oferta de moeda de cada nação consistir em ouro ou papel-moeda lastreado pelo ouro, consistia na idéia de que os países com superávits na balança de pagamentos sofreriam expansão monetária, porque as entradas de ouro levariam a um aumento do ouro em poder de seus bancos centrais e, com isso, a um aumento de seus passivos monetários. De maneira inversa, países com déficits na balança de pagamentos e saída de ouro sofreriam contracção monetária: os passivos monetários de seus bancos centrais diminuíam quando esses bancos centrais vendiam ouro.
Os níveis de preço dos produtos subiriam nos países com superávits na balança de pagamentos quando seu meio circulante aumentasse; já os preços desses produtos iriam cair nos países com déficits na balança de pagamentos, com a redução de seu meio circulante. Em resultado, as exportações das nações deficitárias seriam estimuladas e as suas importações desencorajadas, até que o déficit fosse eliminado. O oposto ocorreria nos países superavitários. A mudança na relação entre níveis de preços internacionais continuaria até que fosse alcançado o equilíbrio da balança de pagamentos (ocorre quando a soma de conta corrente e da conta capital é igual a zero).
Equilíbrio Interno no Padrão Ouro
Ao fixar o preço da moeda em termos de ouro, o padrão ouro pretendia limitar o crescimento da moeda na economia mundial e deste modo garantir a estabilidade de nível geral de preços. Na prática, preços não variaram muito entre países que usavam o Padrão Ouro entre 1870 e 1914 do que o período depois da II Guerra Mundial, no entanto níveis de preços nacionais variou de forma imprevista em períodos muito curtos: períodos de inflação e deflação se seguiram, reflectindo mudança nos preços relativos entre o ouro e outras mercadorias.
O padrão Ouro falhou em garantir o pleno emprego. O desemprego nos EUA atingiu uma média de 6.8% entre 1890 e 1913, mas uma média de 5.6% entre 1946 e 2003. Porquê o Padrão Ouro falhou? A causa fundamental era a subordinação da política económica a objectivos externos. Governos não assumiram o equilíbrio interno com “garras” antes da I Guerra Mundial do que depois da II Guerra Mundial.
Período entre as Guerras
O padrão Ouro foi suspenso durante a primeira guerra enquanto as necessidades de financiamento da guerra elevaram substancialmente o endividamento internacional. Enquanto a guerra decorria períodos contínuos de instabilidade económica eram frequentes. Os termos do Tratado de Versalhes sufocaram a Alemanha que tinha que pagar pelos danos infligidos aos outros países europeus durante a I Guerra Mundial. Períodos após a guerra foram caracterizados por episódios de hiperinflação na Alemanha e alguns países da Europa Central por causa da necessidade da reconstrução. [O índice de preços da Alemanha aumentou de 262, em Janeiro de 1919, para 126.160.000.000.000 em Dezembro de 1923 (um factor de 481,5 biliões)].
Países acordaram estabelecer o padrão de troca parcial de ouro: tanto o ouro como as moedas conversíveis em ouro foram utilizados como reservas internacionais.
Nova York emerge como o novo centro económico como resultado da redução da posição competitiva de Londres. Isso enfraqueceu o restabelecimento parcial do padrão ouro.
Houve mudanças na abordagem. Muitos países passaram a se preocupar mais com a estabilidade interna (como resultado do nacionalismo?), maior intervenção do estado na economia e o surgimento de nacionalismo (políticas de empobrecimento dos vizinhos). A crise de 1929 (Grande Depressão) foi provocada pelos países por terem aumentado a relação entre a quantidade de moeda em circulação e o estoque de ouro com o objectivo de combater a inflação.
O início da Grande Depressão em 1929/302 foi acompanhado por falências de bancos em todo o mundo. A Inglaterra foi forçada a entregar seu ouro em 1931, quando os detentores de libras (incluindo vários bancos) perderam a confiança no compromisso inglês de manter o valor de sua moeda e passaram a converter suas libras em ouro.
Alguns países pequenos deixaram de lado o padrão ouro em 1929 e 1930 e outros países em 1931 e 1932 aderiram às taxas flutuantes com controlos directos sobre o comércio e os pagamentos objectivando o isolamento da crise. Os Estados Unidos haviam deixado de lado o padrão ouro em 1933 e escolheram um novo preço para o ouro em 1934 (a diferença entre o preço antigo e o novo correspondia a uma desvalorização de 70% do dólar em função das moedas que estavam vinculadas ao ouro).
Os países que continuaram a empregar o regime cambial com paridades fixas com relação ao ouro, como França e Itália, tentaram defender suas taxas de câmbio por meio de controlos comercias para reduzir suas importações, mas também tiveram que utilizar políticas deflacionárias para não perderem ouro. Eles abandonaram o esforço em 1936, e suas moedas se desvalorizaram. Depois disso, as taxas de câmbio se estabilizaram e, apesar das grandes variações que haviam ocorrido, as novas taxas não eram muito diferentes daquelas prevalecentes em 1930, antes da Inglaterra abandonar o padrão ouro, pois a estabilização das taxas de câmbio não foi acompanhada por uma redução significativa dos controles sobre o comércio e os pagamentos.
Links Úteis
http://www1.eeg.uminho.pt/economia/fjveiga/emi/EMI_cap5.pdf
http://vsites.unb.br/face/eco/peteco/dload/monos_022005/livia.pdf
http://www.usp.br/estecon/index.php/estecon/article/viewFile/504/215
Finanças e Fiscalidade et al é uma coluna virtual de artigos sobre teoria e práticas em finanças (internacionais)e tributação assim como assuntos sobre desenvolvimento no geral. O objectivo central do blog é apresentar o debate sobre finanças & fiscalidade em Moçambique e sua relação com o desenvolvimento.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
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